
Dr. Solon Gonçalves Souza Menezes
Professor de Cirurgia — FAMED UFU · Certificação em Cirurgia Robótica (Intuitive / Hospital Albert Einstein) · Atende nos Hospitais UMC e Mater Dei Santa Genoveva, Uberlândia-MG · (34) 99341-0915
O hiato é a abertura do diafragma por onde o esôfago passa do tórax para o abdome. Quando essa abertura se alarga, parte do estômago sobe para o tórax: é a hérnia de hiato. No tipo mais comum, a hérnia por deslizamento (tipo I), a junção entre esôfago e estômago desliza para cima; ela costuma ser pequena, muitas vezes é um achado de endoscopia e está ligada ao refluxo gastroesofágico. Nas hérnias paraesofágicas (tipos II a IV), o fundo do estômago — e às vezes outros órgãos — sobe ao lado do esôfago; são menos frequentes, tendem a ser maiores e trazem um risco mecânico próprio: encarceramento e torção do estômago (volvo gástrico).
A primeira coisa a dizer a quem recebeu esse diagnóstico é que a maioria das hérnias de hiato não precisa de cirurgia. A hérnia pequena de deslizamento, sem sintomas ou com refluxo bem controlado por medicação, é tratada clinicamente. A cirurgia é indicada quando há refluxo comprovado que não se controla (a diretriz ACG 2022 cita especificamente as “hérnias de hiato grandes” entre as indicações de cirurgia antirrefluxo), quando a hérnia paraesofágica causa sintomas — dor ou peso no peito depois de comer, saciedade precoce, falta de ar, anemia por pequenas erosões na mucosa — ou quando há sinais de obstrução. A diretriz SAGES 2024 orienta ainda a verificar se a hérnia é mesmo assintomática, porque anemia, dispneia e dor torácica muitas vezes são atribuídas a outras causas.

A correção é feita por via minimamente invasiva, com cinco pequenas incisões: o estômago é trazido de volta ao abdome, o saco herniário é retirado, o hiato é fechado com pontos (hiatoplastia) e, na grande maioria dos casos, acrescenta-se uma fundoplicatura — a volta do fundo gástrico ao redor do esôfago — para evitar o refluxo e ajudar a manter o estômago no lugar. A SAGES 2024 recomenda realizar a fundoplicatura rotineiramente nesse reparo: nos ensaios clínicos, ela reduziu o refluxo objetivo em cerca de 70% (risco relativo 0,31), ao custo de mais disfagia no início. O uso de tela de reforço no hiato não tem recomendação a favor nem contra: nos ensaios randomizados, a tela não reduziu a recidiva.
O Dr. Solon Gonçalves realiza a correção de hérnia de hiato por videolaparoscopia e por cirurgia robótica, nos Hospitais UMC e Mater Dei Santa Genoveva, em Uberlândia-MG. As metanálises publicadas entre 2023 e 2026, que somam centenas de milhares de pacientes, não encontraram diferença em mortalidade, conversão, recidiva, internação ou readmissão entre as duas vias; a videolaparoscopia tem tempo operatório um pouco menor (cerca de 15 minutos) e custo menor, enquanto alguns estudos observacionais sugerem menos complicações intraoperatórias com o robô. Nas hérnias paraesofágicas grandes, em que a dissecção dentro do tórax é longa e delicada, a visão 3D e os instrumentos articulados da robótica são particularmente úteis — a escolha é feita caso a caso, com o paciente.
Agendar uma avaliaçãoQuem tem indicação de cirurgia de hérnia de hiato.
A indicação depende do tipo de hérnia, dos sintomas e da comprovação objetiva do refluxo. Endoscopia, radiografia contrastada do esôfago, manometria e, em casos selecionados, pHmetria e tomografia fazem parte da avaliação.
Refluxo que não se controla
Hérnia de hiato com refluxo comprovado e sintomas persistentes apesar da medicação, esofagite grave ou regurgitação importante: a correção da hérnia com fundoplicatura é indicação de cirurgia antirrefluxo (ACG 2022).
Hérnia paraesofágica com sintomas
Dor ou pressão no peito após as refeições, saciedade precoce, vômitos, falta de ar ou anemia por erosões da mucosa: indicam correção, pelo risco de encarceramento e volvo gástrico.
Obstrução ou encarceramento
Dor intensa, vômitos sem conseguir eliminar e impossibilidade de passar sonda são sinais de urgência — a hérnia encarcerada precisa de cirurgia imediata.
Hérnia sem sintomas
Em hérnias verdadeiramente assintomáticas não há estudos comparando cirurgia e observação; a SAGES 2024 considera razoável a observação vigilante quando a investigação é negativa e o paciente compreende o risco de volvo. A idade, por si só, não contraindica a cirurgia.
Videolaparoscopia e robótica na hérnia de hiato: o que a evidência mostra.
Os passos da operação são os mesmos nas duas vias — redução do estômago, retirada do saco herniário, hiatoplastia e fundoplicatura. A tabela reúne os resultados das metanálises comparativas mais recentes.
| Desfecho | Videolaparoscopia | Cirurgia robótica |
|---|---|---|
| Mortalidade, conversão, recidiva, internação e readmissão | Sem diferença (13 estudos, 205 mil pacientes, Hernia 2025) | Sem diferença |
| Complicações pós-operatórias | Sem diferença na maior metanálise (38 estudos, 550 mil pacientes, RR 0,85) | Um estudo observacional sugere menos complicações (OR 0,52) |
| Complicações durante a cirurgia | — | Menos em uma metanálise de 11 estudos (OR 0,41), sem diferença nas complicações graves |
| Tempo de cirurgia | Cerca de 15 a 20 minutos menor | Maior |
| Custo | Menor | Cerca de US$ 3 mil a mais por caso |
| Hérnias paraesofágicas | Sem superioridade demonstrada de nenhuma via (10 estudos, 186 mil pacientes) | Visão 3D e instrumentos articulados úteis na dissecção mediastinal |
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O que esperar antes e depois da cirurgia.
Preparo pré-operatório
A avaliação inclui endoscopia digestiva alta, radiografia contrastada do esôfago (que mostra o tamanho e o tipo da hérnia), manometria esofágica — que orienta a escolha entre fundoplicatura total e parcial — e, quando o refluxo ainda não está documentado, pHmetria sem medicação. Tomografia é útil em hérnias grandes. Exames de sangue, avaliação cardiológica em pacientes mais idosos e avaliação anestésica completam o preparo; orienta-se jejum, suspensão de anticoagulantes conforme orientação e interrupção do tabagismo.
Recuperação e pós-operatório
A internação costuma ser de 1 a 3 dias, mais longa nas hérnias paraesofágicas grandes. A dieta começa líquida e evolui para pastosa e sólida ao longo de algumas semanas; dificuldade para engolir no início é esperada e tende a melhorar. Dor nos ombros pelo gás e desconforto no peito nos primeiros dias são comuns. Trabalho sem esforço é retomado em 1 a 2 semanas; esforço físico e levantamento de peso, em geral após 4 a 6 semanas, para proteger o reparo do hiato. O seguimento é importante: parte das hérnias grandes recidiva anatomicamente ao longo dos anos, mesmo quando os sintomas continuam controlados.
Riscos e recidiva, com os números publicados.
Além dos riscos de qualquer cirurgia abdominal, a correção da hérnia de hiato tem dois pontos que o paciente precisa conhecer: a disfagia das primeiras semanas e a possibilidade de recidiva anatômica a longo prazo.
- Recidiva da hérnia — nas hérnias paraesofágicas grandes, o seguimento de longo prazo de um ensaio randomizado (mediana de 58 meses) encontrou recidiva radiológica em 54% a 59% dos pacientes; apesar disso, o alívio dos sintomas e a melhora da qualidade de vida foram duradouros, e poucas recidivas precisam de nova cirurgia. Em hérnias pequenas a recidiva é bem menos frequente.
- Disfagia — frequente e transitória nas primeiras semanas; a fundoplicatura associada aumenta a disfagia precoce (risco relativo 2,08 nos estudos observacionais), em troca de muito menos refluxo.
- Distensão e dificuldade para arrotar — efeitos da nova válvula, menores com a fundoplicatura parcial.
- Complicações cirúrgicas — perfuração do esôfago ou do estômago, sangramento, lesão do baço ou da pleura (pneumotórax) durante a dissecção no tórax: raras, mais prováveis em hérnias grandes e em reoperações.
- Tela de reforço — quando usada, há risco raro de erosão; nos ensaios randomizados não houve erosão em 270 pacientes, mas também não houve redução da recidiva — por isso não é usada de rotina.
- Riscos gerais — anestesia, trombose venosa e infecção, com baixa frequência.
Dúvidas comuns sobre esse procedimento.
Toda hérnia de hiato precisa de cirurgia?+
Não. A maioria é pequena, de deslizamento, e é tratada clinicamente — com medicação para o refluxo e mudanças de hábito. A cirurgia é indicada quando o refluxo não se controla apesar do tratamento, quando a hérnia é paraesofágica e causa sintomas, ou quando há sinais de obstrução. Hérnias sem sintomas podem ser observadas, desde que a investigação confirme que são mesmo assintomáticas.
Hérnia de hiato tem cura? Pode sumir sozinha?+
A hérnia não desaparece sozinha, porque o hiato alargado não se fecha espontaneamente; o que pode ser controlado são os sintomas. A cirurgia corrige a hérnia, mas, nas hérnias grandes, parte delas recidiva anatomicamente com o passar dos anos — mesmo assim, o alívio dos sintomas costuma ser duradouro.
Hérnia de hiato pode virar câncer?+
A hérnia de hiato em si não é câncer nem se transforma em câncer. O que merece atenção é o refluxo crônico que a acompanha: ele pode causar esofagite e esôfago de Barrett, condição que aumenta o risco de câncer de esôfago e precisa de acompanhamento endoscópico. Controlar o refluxo — com remédio ou cirurgia — é a forma de proteger o esôfago.
O que acontece se não tratar a hérnia de hiato?+
Depende do tipo. Na hérnia de deslizamento, o problema é o refluxo não tratado, com esofagite e suas consequências. Na paraesofágica, o estômago herniado pode encarcerar ou torcer (volvo gástrico), uma emergência cirúrgica — por isso as paraesofágicas sintomáticas são operadas de forma eletiva, antes que isso aconteça.
Qual o risco da cirurgia de hérnia de hiato?+
É uma cirurgia segura por via minimamente invasiva, com mortalidade muito baixa e complicações maiores raras. Os pontos mais frequentes são a disfagia transitória e a distensão abdominal, e, a longo prazo, a recidiva anatômica nas hérnias grandes. Os números estão na seção de riscos desta página.
Como fica o estômago depois da cirurgia?+
O estômago volta para o abdome e passa a ficar abaixo do diafragma; o hiato é fechado com pontos e o fundo gástrico forma uma válvula ao redor do esôfago. A capacidade do estômago não muda, mas nas primeiras semanas a válvula está inchada, por isso a dieta é progressiva.
A cirurgia de hérnia de hiato emagrece?+
Não é esse o objetivo. Pode haver perda de peso temporária por causa da dieta líquida e pastosa das primeiras semanas, que se estabiliza depois. Em pacientes com obesidade, a cirurgia indicada pode ser o bypass gástrico, que trata o refluxo, a hérnia e o excesso de peso ao mesmo tempo.
Quanto tempo leva a cirurgia e a internação?+
Entre uma e três horas, conforme o tamanho da hérnia, sob anestesia geral; a internação é de 1 a 3 dias. Hérnias paraesofágicas grandes exigem dissecção mais longa dentro do tórax.
Quanto tempo de recuperação e de atestado?+
Trabalho sem esforço físico em 1 a 2 semanas; esforço e levantamento de peso após 4 a 6 semanas. A dieta progressiva nas primeiras semanas é parte do tratamento. O atestado é definido individualmente.
A cirurgia é a laser? É por vídeo ou robótica?+
Não existe cirurgia de hérnia de hiato a laser. A correção é feita por videolaparoscopia ou com o robô cirúrgico, pelas mesmas cinco pequenas incisões; as duas vias têm resultados equivalentes nas metanálises, e a robótica é escolhida em casos selecionados, como hérnias grandes e reoperações.
Precisa colocar tela na hérnia de hiato?+
Não de rotina. A diretriz SAGES 2024 não recomenda a favor nem contra: nos ensaios randomizados a tela não reduziu a recidiva, embora estudos observacionais sugiram algum benefício. Ela pode ser considerada em hérnias muito grandes ou recidivadas, caso a caso.
Você opera pelo SUS?+
Faço cirurgias pelo SUS. Sou professor de Cirurgia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Uberlândia e opero pacientes no Hospital de Clínicas da UFU (HC-UFU). O caminho, porém, não passa pelo meu consultório: para ser operado pelo SUS é preciso procurar o posto de saúde ou a Unidade Básica de Saúde mais próxima da sua residência, ser avaliado por um médico e, havendo indicação cirúrgica, ser inserido na fila de regulação do seu município. O cirurgião não escolhe quem vai operar pelo SUS — a fila é seguida rigorosamente, conforme as regras do SUS.
Estrutura hospitalar em Uberlândia-MG.
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Abrir no Google Maps →Conteúdo revisado por Dr. Solon Gonçalves Souza Menezes — CRM-MG 79366, RQE 60355 (Cirurgia do Aparelho Digestivo), RQE 44656 (Cirurgia Geral). Professor de Cirurgia da FAMED-UFU e Supervisor do Programa de Residência Médica em Cirurgia Geral do HC-UFU. ORCID. Última revisão: outubro/2026.
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