
Dr. Solon Gonçalves Souza Menezes
Professor de Cirurgia — FAMED UFU · Certificação em Cirurgia Robótica (Intuitive / Hospital Albert Einstein) · Atende nos Hospitais UMC e Mater Dei Santa Genoveva, Uberlândia-MG · (34) 99341-0915
A fístula anal (ou perianal) é um túnel anormal que liga o interior do canal anal à pele ao redor do ânus. Quase sempre começa com um abscesso: uma das pequenas glândulas do canal anal infecciona, o pus abre caminho até a pele e, depois de drenado, o trajeto permanece — por ele saem secreção, sangue ou pus, de forma intermitente, com dor e irritação da pele. A classificação de Parks descreve a fístula pela relação do trajeto com os músculos esfincterianos: interesfincteriana (a mais comum e superficial), transesfincteriana (atravessa o esfíncter externo), supraesfincteriana e extraesfincteriana. Quanto mais músculo o trajeto envolve, mais “complexa” é a fístula e mais o tratamento precisa poupar o esfíncter para não causar incontinência.

A fístula não cicatriza sozinha nem com pomadas ou tratamentos caseiros — o tratamento é cirúrgico, e a diretriz ASCRS 2022 organiza as opções. Para a fístula simples, com esfíncter normal, a fistulotomia (abertura do trajeto) é o tratamento de escolha, com recomendação forte: tem as maiores taxas de cura e, nesse grupo, risco mínimo para a continência. Para as fístulas complexas, em que abrir o trajeto cortaria músculo demais, entram as técnicas que poupam o esfíncter: a ligadura do trajeto no espaço interesfincteriano (LIFT, recomendação forte para as transesfincterianas), o retalho de avanço endorretal (recomendação forte) e, como etapa prévia frequente, o sedenho — um fio que mantém o trajeto drenado por semanas ou meses, controlando a infecção antes do tratamento definitivo. Plug e cola de fibrina são considerados pouco eficazes.
O fechamento a laser do trajeto fistuloso é a opção minimamente invasiva mais recente: uma fibra de laser percorre o túnel de dentro para fora e a energia destrói o epitélio e oblitera o trajeto, sem cortar o esfíncter. O Dr. Solon Gonçalves oferece a técnica para fístulas complexas, e o ponto sólido dela é justamente a preservação do músculo: nas metanálises, a incontinência nova após o laser é inferior a 1%, e na metanálise em rede de 2025 nenhum paciente tratado a laser teve piora da continência, contra 1,5% após o LIFT e 7,3% após o retalho. O ponto fraco é a cicatrização: a cura em uma única sessão fica em torno de 57% a 67% nas metanálises (variando de 22% a 82% entre as séries), a recidiva é de cerca de 18%, e o único ensaio randomizado contra o LIFT, em fístulas altas, encontrou falha semelhante e elevada nos dois braços (54% e 50%). A diretriz americana classifica o laser com grau 2C: cicatrização razoável a curto prazo, resultados de longo prazo desconhecidos.
Na prática, isso significa que o laser é uma opção honesta para quem tem fístula complexa e quer, antes de tudo, proteger a continência — aceitando que pode ser preciso repetir o procedimento (o retratamento a laser cura cerca de metade das falhas) ou passar a outra técnica. Para a fístula simples, a fistulotomia continua sendo melhor, e o consenso dos próprios especialistas em laser reconhece isso. O Dr. Solon atende nos Hospitais UMC e Mater Dei Santa Genoveva, em Uberlândia-MG, e define a técnica a partir do exame proctológico e, nas fístulas complexas, da ressonância magnética da pelve, que mapeia o trajeto.
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A escolha segue a diretriz ASCRS 2022 e depende do tipo de fístula, da quantidade de esfíncter envolvida, de cirurgias anteriores e da presença de doença de Crohn, que muda a conduta. A ressonância magnética da pelve é o exame de referência para mapear fístulas complexas e recidivadas.
Fístula simples
Fistulotomia: o trajeto é aberto e cicatriza de dentro para fora, com as maiores taxas de cura e risco mínimo de incontinência quando o esfíncter é normal. Recomendação forte (1B). Não é o cenário do laser, que cicatriza menos nesse grupo.
Fístula transesfincteriana
LIFT (ligadura do trajeto no espaço interesfincteriano), retalho de avanço ou fechamento a laser, em geral após um período com sedenho. Falhas publicadas: LIFT 28,6%, retalho 25,9%, laser 43,9% na metanálise em rede — com piora da continência de 1,5%, 7,3% e 0%, respectivamente.
Fístulas supra e extraesfincterianas
As mais complexas: tratamento em etapas, com sedenho e técnicas poupadoras de esfíncter; a cura a laser nesses tipos é menor (36% a 42% nos dados agrupados).
Abscesso e fase aguda
O abscesso é drenado primeiro; a fístula é tratada depois, quando o trajeto está maduro. Na doença de Crohn, o controle da inflamação com o gastroenterologista vem antes de qualquer tratamento definitivo.
Cura e risco para o esfíncter, técnica por técnica.
Os números abaixo vêm da diretriz ASCRS 2022, das metanálises de laser e da metanálise em rede que comparou as quatro técnicas poupadoras de esfíncter (49 estudos, 3.520 pacientes). Quase toda a evidência sobre o laser é observacional; os dois ensaios randomizados publicados até 2026 estão citados.
| Técnica | Indicação | Cura / falha publicada | Piora da continência | Grau na ASCRS 2022 |
|---|---|---|---|---|
| Fistulotomia | Fístula simples, esfíncter normal | As maiores taxas de cura | Mínima quando bem indicada | 1B (forte) |
| Sedenho | Drenagem prévia; fístulas complexas | Controla a infecção; não cura isoladamente | Baixa (sedenho frouxo) | 2C para sedenho cortante |
| LIFT | Transesfincteriana | Falha 28,6% (metanálise em rede) | 1,5% | 1B (forte) |
| Retalho de avanço | Complexas, transesfincterianas altas | Falha 25,9% | 7,3% | 1B (forte) |
| Fechamento a laser do trajeto | Complexas, quando poupar o esfíncter é prioridade | Cura primária 57% a 67% nas metanálises; falha 43,9% na metanálise em rede; recidiva ~18%; retratamento cura ~metade das falhas | 0% a 1% | 2C (fraca, evidência baixa) |
| Plug e cola de fibrina | — | Pouco eficazes | Baixa | 1B contra o uso rotineiro |
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O que esperar antes e depois da cirurgia.
Preparo pré-operatório
O exame proctológico identifica os orifícios e o trajeto; em fístulas complexas, recidivadas ou com suspeita de doença de Crohn, pede-se ressonância magnética da pelve e, quando necessário, colonoscopia. A avaliação da continência prévia orienta a técnica. Nos casos com infecção ativa, coloca-se o sedenho primeiro — para o laser, o consenso dos especialistas recomenda manter o sedenho por pelo menos dois meses antes do procedimento, o que aumenta a chance de cura (70% contra 52% na maior série publicada). Exames de sangue, avaliação anestésica, jejum e limpeza intestinal simples completam o preparo.
Recuperação e pós-operatório
Os procedimentos são feitos em hospital-dia ou com uma noite de internação, sob anestesia raquidiana ou geral. Após o laser, a dor costuma ser leve e o retorno às atividades, rápido (cerca de 5 a 10 dias nos ensaios); após a fistulotomia, a ferida aberta cicatriza de dentro para fora ao longo de 4 a 8 semanas, com curativos e banhos de assento. Secreção pelo orifício externo nas primeiras semanas é esperada em todas as técnicas. O seguimento se estende por meses, porque a recidiva pode aparecer tarde — na série de 175 pacientes tratados a laser, a recidiva ocorreu em mediana de 18 meses.
Recidiva e incontinência: os dois riscos que orientam a escolha.
Toda técnica para fístula anal troca cura por risco para o esfíncter, em proporções diferentes. Os números vêm das fontes citadas nas referências.
- Falha ou recidiva — o risco central das técnicas poupadoras de esfíncter: 25,9% (retalho), 28,6% (LIFT) e 43,9% (laser) na metanálise em rede; após o laser, recidiva de cerca de 18% e reoperação em cerca de 36% dos pacientes na metanálise de 24 estudos. A fistulotomia em fístula simples tem a menor recidiva.
- Incontinência — o risco central da fistulotomia em fístulas que envolvem muito músculo, e por isso ela é reservada às simples; após o retalho, piora da continência em 7,3%; após o LIFT, 1,5%; após o laser, 0% a 1% (escape leve de gases ou muco).
- Abscesso ou infecção pós-operatória — cerca de 6,5% após o laser na metanálise de 2025; possível em todas as técnicas.
- Sangramento e dor — em geral leves; complicações menores após o laser em cerca de 4% a 10%.
- Doença de Crohn — eleva a taxa de falha de todas as técnicas e exige tratamento conjunto com o gastroenterologista.
- Riscos gerais — anestesia, retenção urinária transitória e infecção, com baixa frequência.
Dúvidas comuns sobre esse procedimento.
Fístula anal tem cura? Pode fechar sozinha?+
Tem cura, mas o tratamento é cirúrgico: a fístula não fecha sozinha nem com pomadas ou receitas caseiras, porque o trajeto é revestido por tecido que impede a cicatrização. A fistulotomia cura a grande maioria das fístulas simples; nas complexas, as técnicas poupadoras de esfíncter curam entre 56% e 75% dos casos em uma sessão, e muitas falhas são resolvidas com um segundo procedimento.
Fístula perianal é grave?+
Não costuma ameaçar a vida, mas incomoda muito, pode causar abscessos de repetição e, sem tratamento, o trajeto pode se ramificar e ficar mais complexo. Em casos raros de fístulas antigas e negligenciadas há risco de transformação maligna. Por isso, deve ser tratada.
Fistulotomia ou laser: qual é melhor?+
Depende da fístula. Na fístula simples, com esfíncter normal, a fistulotomia é melhor: cura mais e, nesse grupo, quase não afeta a continência — a diretriz a recomenda com grau forte, e até o consenso dos especialistas em laser reconhece que o laser não deve ser a primeira opção nesses casos. Na fístula complexa, em que abrir o trajeto cortaria músculo demais, o laser é uma opção que protege o esfíncter (incontinência nova abaixo de 1%), com cura em torno de 57% a 67% em uma sessão e possibilidade de repetição.
Qual a taxa de cura da fístula a laser?+
Nas metanálises, a cura primária fica entre 57% e 67%, com recidiva de cerca de 18%; entre as séries individuais, varia de 22% a 82%, conforme o tipo de fístula, o uso prévio de sedenho e a experiência do serviço. Nas transesfincterianas a cura é maior do que nas supra e extraesfincterianas (36% a 42%). Repetir o laser cura cerca de metade das falhas, elevando o sucesso final para em torno de 70% a 74% nas maiores séries.
A fístula pode voltar depois da cirurgia?+
Pode, com qualquer técnica, e muitas vezes tarde: na maior série de laser, a recidiva ocorreu em mediana de 18 meses. A recidiva é menor após a fistulotomia de fístula simples e maior após as técnicas poupadoras de esfíncter — 26% a 44% de falha na metanálise em rede. Por isso o acompanhamento se estende por meses.
O que é sedenho?+
É um fio (de silicone ou de outro material) passado pelo trajeto da fístula e deixado no lugar por semanas ou meses. Ele mantém o trajeto drenado, evita novos abscessos e amadurece a fístula para o tratamento definitivo — no laser, manter o sedenho por pelo menos dois meses antes aumenta a chance de cura. O sedenho frouxo não corta o músculo; o sedenho cortante, que seciona o esfíncter lentamente, é reservado a casos selecionados.
A cirurgia de fístula causa incontinência?+
É o risco que define a escolha da técnica. A fistulotomia é segura quando a fístula é simples e o esfíncter é normal; em fístulas que envolvem muito músculo, ela é evitada. Entre as técnicas poupadoras, a piora da continência foi de 7,3% após o retalho, 1,5% após o LIFT e 0% após o laser na metanálise em rede — em geral escape leve de gases ou muco.
Quanto tempo de recuperação e de atestado?+
Após o laser e o LIFT, o retorno às atividades leva em torno de uma a duas semanas (5 a 10 dias nos ensaios). Após a fistulotomia, a ferida cicatriza em 4 a 8 semanas, mas o trabalho sem esforço costuma ser retomado em uma a duas semanas. O atestado é definido caso a caso.
Fístula anal pode virar câncer?+
A transformação maligna é rara e acontece em fístulas muito antigas e cronicamente inflamadas. É mais um motivo para tratar a fístula e para investigar, com biópsia, trajetos que mudam de aspecto ou não cicatrizam como esperado.
Preciso fazer ressonância?+
Para fístulas simples, o exame proctológico costuma bastar. Para fístulas complexas, recidivadas, com múltiplos orifícios ou suspeita de doença de Crohn, a ressonância magnética da pelve mapeia o trajeto e as ramificações e é fundamental para planejar a cirurgia.
Você opera pelo SUS?+
Faço cirurgias pelo SUS. Sou professor de Cirurgia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Uberlândia e opero pacientes no Hospital de Clínicas da UFU (HC-UFU). O caminho, porém, não passa pelo meu consultório: para ser operado pelo SUS é preciso procurar o posto de saúde ou a Unidade Básica de Saúde mais próxima da sua residência, ser avaliado por um médico e, havendo indicação cirúrgica, ser inserido na fila de regulação do seu município. O cirurgião não escolhe quem vai operar pelo SUS — a fila é seguida rigorosamente, conforme as regras do SUS.
Estrutura hospitalar em Uberlândia-MG.
Hospital Mater Dei Santa Genoveva
Av. Vasconcelos Costa, 967 — Bairro Martins, Uberlândia-MG
Abrir no Google Maps →Hospital UMC
Rua Rafael Marino Neto, 600 — Bairro Jardim Karaíba, Uberlândia-MG
Abrir no Google Maps →Conteúdo revisado por Dr. Solon Gonçalves Souza Menezes — CRM-MG 79366, RQE 60355 (Cirurgia do Aparelho Digestivo), RQE 44656 (Cirurgia Geral). Professor de Cirurgia da FAMED-UFU e Supervisor do Programa de Residência Médica em Cirurgia Geral do HC-UFU. ORCID. Última revisão: outubro/2026.
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