
Dr. Solon Gonçalves Souza Menezes
Professor de Cirurgia — FAMED UFU · Certificação em Cirurgia Robótica (Intuitive / Hospital Albert Einstein) · Atende nos Hospitais UMC e Mater Dei Santa Genoveva, Uberlândia-MG · (34) 99341-0915
A doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) acontece quando o conteúdo ácido do estômago sobe para o esôfago com frequência, causando azia, regurgitação, dor no peito, tosse ou rouquidão. Na base do problema estão uma válvula natural enfraquecida — o esfíncter inferior do esôfago — e, muitas vezes, uma hérnia de hiato, que desloca a junção entre esôfago e estômago para dentro do tórax. A maioria dos pacientes se trata bem com mudanças de hábito e medicamentos inibidores da bomba de prótons (omeprazol e similares). A cirurgia entra como alternativa de longo prazo para um grupo específico.
Pela diretriz do Colégio Americano de Gastroenterologia (ACG 2022), a cirurgia antirrefluxo, feita por cirurgião experiente, é uma opção de tratamento de longo prazo para pacientes com evidência objetiva de refluxo — especialmente esofagite grave (graus C ou D de Los Angeles), hérnias de hiato grandes e sintomas persistentes e incômodos apesar do tratamento (recomendação forte). A sociedade dos cirurgiões endoscópicos americanos (SAGES 2021) também recomenda, de forma condicional, o tratamento cirúrgico em vez do clínico para o refluxo crônico ou refratário. O ponto decisivo é a palavra “objetiva”: em um estudo citado pela diretriz, de 366 pacientes com azia que não melhorava com medicação, apenas 21% tinham refluxo verdadeiramente refratário — nos demais, a causa era outra, e operar seria um erro.
A operação se chama fundoplicatura: a parte alta do estômago (o fundo) é enrolada ao redor da porção final do esôfago, formando uma nova válvula, e a hérnia de hiato, quando existe, é corrigida no mesmo ato. Na técnica de Nissen a volta é completa (360°); na de Toupet, parcial posterior (270°). Metanálise de 8 ensaios randomizados (1.545 pacientes) não encontrou diferença na recidiva do refluxo entre as duas, mas a disfagia (dificuldade para engolir) de longo prazo foi significativamente menor com Toupet — por isso a escolha leva em conta a manometria pré-operatória e as características de cada paciente. Tudo é feito por via minimamente invasiva, com cinco pequenas incisões.

O Dr. Solon Gonçalves realiza a fundoplicatura por videolaparoscopia e por cirurgia robótica, nos Hospitais UMC e Mater Dei Santa Genoveva, em Uberlândia-MG. A SAGES considera que o paciente pode ser tratado por qualquer uma das duas vias, em decisão compartilhada; a metanálise que reuniu apenas os ensaios randomizados (160 pacientes) e a que reuniu 38 estudos (mais de 550 mil pacientes) não encontraram diferença em complicações, disfagia, reoperação, recidiva ou uso de medicação — a robótica teve tempo operatório e custo maiores. A via robótica, com instrumentos articulados e visão 3D, é escolhida em casos selecionados, como hérnias de hiato grandes ou reoperações, sempre em conjunto com o paciente.
Agendar uma avaliaçãoQuem tem indicação de cirurgia antirrefluxo.
A indicação exige comprovação objetiva da doença. Antes de qualquer procedimento antirrefluxo, a diretriz ACG 2022 recomenda manometria esofágica de alta resolução, para excluir acalasia e ausência de contratilidade (que, para a maioria dos pacientes, contraindica a fundoplicatura), e, quando ainda não há prova objetiva do refluxo, pHmetria de 24 horas sem medicação.
Refluxo comprovado e mal controlado
Sintomas persistentes e incômodos apesar do tratamento otimizado, com refluxo documentado por endoscopia (esofagite C ou D, esôfago de Barrett) ou pHmetria. É o grupo em que a cirurgia tem recomendação forte no ACG 2022.
Regurgitação predominante
Volume de conteúdo que sobe até a boca, especialmente ao deitar, responde pouco aos medicamentos e muito bem à cirurgia: no ensaio LOTUS, 2% dos operados mantinham regurgitação em 5 anos, contra 13% dos tratados com esomeprazol.
Hérnia de hiato grande
Hérnias volumosas ou paraesofágicas associadas a refluxo são indicação de correção cirúrgica com fundoplicatura, segundo ACG 2022 e SAGES 2024. Veja a página de hérnia de hiato.
Quem prefere não depender de remédio
Pacientes jovens com refluxo objetivo e boa resposta à medicação, que não querem usá-la por décadas, podem optar pela cirurgia em decisão compartilhada — sabendo que uma parcela dos operados volta a precisar de medicação ao longo dos anos.
Cirurgia ou remédio: o que os ensaios clínicos mostram.
Os melhores dados de longo prazo vêm do ensaio randomizado LOTUS (554 pacientes em 11 países, 5 anos de seguimento) e de um estudo de registro sueco com 2.655 operados. Eles mostram que a fundoplicatura controla o ácido de forma mais completa do que o remédio, mas também que a cirurgia tem efeitos colaterais próprios e que o refluxo pode voltar.
| Desfecho | Fundoplicatura laparoscópica | Esomeprazol contínuo |
|---|---|---|
| Remissão em 5 anos (LOTUS) | 85% (IC 95% 81–90) | 92% (IC 95% 89–96) |
| Regurgitação em 5 anos | 2% | 13% |
| Exposição ácida do esôfago (pHmetria) | De 8,6% para 0,7% do tempo | De 8,8% para 1,9% do tempo |
| Disfagia em 5 anos | 11% | 5% |
| Distensão abdominal / flatulência | 40% / 57% | 28% / 40% |
| Eventos adversos graves | 28,6% | 24,1% |
| Recidiva do refluxo após cirurgia (registro sueco, 5,6 anos) | 17,7% (84% destes controlados com medicação; 16% reoperados) | — |
| Uso de medicação após a cirurgia | 28% dos operados relatam algum uso (revisão SAGES) | 100% |
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O que esperar antes e depois da cirurgia.
Preparo pré-operatório
A investigação pré-operatória define se a cirurgia é a escolha certa e qual técnica usar: endoscopia digestiva alta, manometria esofágica de alta resolução (fundamental para escolher entre Nissen e Toupet e para excluir acalasia) e, quando ainda não há comprovação objetiva, pHmetria de 24 horas realizada sem a medicação. Exames de sangue e avaliação anestésica completam o preparo, além do jejum e da suspensão orientada de alguns medicamentos. Em pacientes com obesidade importante, o consenso multissociedade de 2022 orienta discutir o bypass gástrico como alternativa, porque trata o refluxo e o excesso de peso ao mesmo tempo — veja a página de cirurgia bariátrica.
Recuperação e pós-operatório
A internação é de 1 a 2 dias. Nas primeiras semanas a dieta é líquida e depois pastosa, evoluindo gradualmente para sólidos, porque a nova válvula está edemaciada — alguma dificuldade para engolir nesse período é esperada e costuma melhorar. Distensão abdominal e dificuldade para arrotar ou vomitar podem ocorrer, sobretudo após o Nissen. Metanálise de 12 ensaios mostrou que a via laparoscópica encurta a internação em quase 3 dias e o retorno às atividades em cerca de 8 dias em comparação com a cirurgia aberta. Trabalho sem esforço costuma ser retomado em 1 a 2 semanas e exercícios intensos após 4 a 6 semanas, com orientação individual.
O que pode dar errado — e com que frequência.
A fundoplicatura é segura, mas tem efeitos colaterais característicos que o paciente precisa conhecer antes de decidir. Os números vêm do ensaio LOTUS, da revisão sistemática da SAGES e das metanálises citadas nas referências.
- Disfagia (dificuldade para engolir) — comum e transitória nas primeiras semanas; persistente em cerca de 11% em 5 anos no LOTUS (vs 5% com medicação). É menor com a fundoplicatura parcial (Toupet) do que com a total (Nissen).
- Síndrome gas-bloat — distensão, dificuldade para arrotar e flatulência: no LOTUS, 40% relataram distensão e 57% flatulência em 5 anos, contra 28% e 40% com medicação.
- Recidiva do refluxo — 17,7% em 5,6 anos no registro sueco, a maioria controlada com medicação; cerca de 3% precisam de reoperação. Deslizamento ou migração da válvula são causas de recidiva e de nova cirurgia.
- Complicações cirúrgicas maiores — perfuração do esôfago ou do estômago, sangramento, lesão do baço: raras; na análise da SAGES, complicações graves foram cerca de 2,9% mais frequentes no braço cirúrgico do que no clínico.
- Riscos gerais — anestesia, trombose venosa, infecção e hérnia nas incisões, com baixa frequência.
Dúvidas comuns sobre esse procedimento.
Quando é preciso fazer cirurgia de refluxo?+
Quando o refluxo está comprovado por exames (endoscopia com esofagite grave ou pHmetria alterada) e os sintomas persistem apesar do tratamento otimizado, quando a regurgitação é o sintoma principal, ou quando existe hérnia de hiato grande. Também pode ser uma escolha de quem tem refluxo objetivo e não quer depender de medicação por décadas. Antes de operar, a manometria é essencial para excluir doenças que imitam o refluxo.
A cirurgia de refluxo resolve? Vale a pena?+
Para o paciente bem selecionado, sim: a cirurgia reduz a exposição ácida do esôfago de forma mais completa do que o remédio e controla muito melhor a regurgitação. Mas é preciso saber que, em 5 anos, 85% dos operados estavam em remissão no ensaio LOTUS, que cerca de 18% têm algum grau de recidiva em pouco mais de 5 anos e que disfagia e distensão são mais frequentes do que com a medicação. Vale a pena quando esses pontos são discutidos com honestidade antes da decisão.
Fiz cirurgia de refluxo e continuo com azia. Isso é normal?+
Nas primeiras semanas, sintomas podem oscilar enquanto a válvula se acomoda. Azia persistente meses depois merece investigação: pode ser recidiva por migração ou afrouxamento da válvula (que atinge cerca de 18% em 5 anos e em geral responde à medicação), ou outra causa, como sensibilidade esofágica. Uma minoria precisa de nova cirurgia.
Qual a diferença entre fundoplicatura de Nissen e de Toupet?+
No Nissen o fundo do estômago dá a volta completa (360°) ao redor do esôfago; no Toupet a volta é parcial, posterior (270°). O controle do refluxo é semelhante nos ensaios clínicos, mas o Toupet causa menos disfagia a longo prazo; em contrapartida, alguns estudos sugerem um pouco mais de uso de medicação depois da técnica parcial. A manometria ajuda a decidir: quando a contração do esôfago é fraca, a parcial é preferida.
A cirurgia é por vídeo ou robótica? Qual é melhor?+
As duas. A fundoplicatura é feita por videolaparoscopia ou com o robô, pelas mesmas cinco pequenas incisões. As metanálises, inclusive a que reuniu só ensaios randomizados, não encontraram diferença em complicações, disfagia, reoperação ou recidiva — a robótica demora mais e custa mais. A SAGES considera as duas vias aceitáveis em decisão compartilhada; a robótica é reservada a casos selecionados, como hérnias grandes ou reoperações.
Quanto tempo dura a cirurgia e a internação?+
A fundoplicatura costuma durar de uma a duas horas, sob anestesia geral, e a internação é de 1 a 2 dias. O tempo pode ser maior quando há hérnia de hiato grande ou cirurgia prévia no abdome superior.
Quanto tempo dura o resultado da fundoplicatura?+
A maior parte dos pacientes mantém o controle do refluxo por muitos anos: 85% em remissão aos 5 anos no ensaio LOTUS. No registro sueco, 17,7% tiveram recidiva em pouco mais de 5 anos, a grande maioria controlada com medicação. O resultado tende a durar mais em quem tem a doença bem documentada e em quem mantém o peso sob controle.
Quantos dias de repouso e de atestado?+
Em geral 1 a 2 semanas para trabalho sem esforço físico e 4 a 6 semanas para exercícios intensos e levantamento de peso. A dieta progressiva (líquida, depois pastosa) nas primeiras semanas é parte importante da recuperação. O atestado é definido caso a caso.
A cirurgia de refluxo emagrece?+
Emagrecer não é objetivo da fundoplicatura. Alguma perda de peso pode ocorrer nas primeiras semanas por causa da dieta líquida e pastosa, e tende a se estabilizar. Para quem tem obesidade e refluxo, a operação indicada pode ser outra — o bypass gástrico, que trata as duas condições.
Vou poder arrotar e vomitar depois da cirurgia?+
A nova válvula dificulta o arroto e o vômito, sobretudo após o Nissen; isso explica a distensão e a flatulência relatadas por parte dos pacientes (40% e 57% em 5 anos no LOTUS). Com a técnica parcial (Toupet) esses efeitos são menores. A maioria se adapta, e orientações como comer devagar e evitar bebidas gaseificadas ajudam.
A cirurgia de refluxo é perigosa? Quais os riscos?+
É uma cirurgia segura quando bem indicada. Os efeitos colaterais mais comuns são disfagia e distensão; complicações maiores, como perfuração ou sangramento, são raras. Os números detalhados estão na seção de riscos desta página.
Você opera pelo SUS?+
Faço cirurgias pelo SUS. Sou professor de Cirurgia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Uberlândia e opero pacientes no Hospital de Clínicas da UFU (HC-UFU). O caminho, porém, não passa pelo meu consultório: para ser operado pelo SUS é preciso procurar o posto de saúde ou a Unidade Básica de Saúde mais próxima da sua residência, ser avaliado por um médico e, havendo indicação cirúrgica, ser inserido na fila de regulação do seu município. O cirurgião não escolhe quem vai operar pelo SUS — a fila é seguida rigorosamente, conforme as regras do SUS.
Estrutura hospitalar em Uberlândia-MG.
Hospital Mater Dei Santa Genoveva
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Rua Rafael Marino Neto, 600 — Bairro Jardim Karaíba, Uberlândia-MG
Abrir no Google Maps →Conteúdo revisado por Dr. Solon Gonçalves Souza Menezes — CRM-MG 79366, RQE 60355 (Cirurgia do Aparelho Digestivo), RQE 44656 (Cirurgia Geral). Professor de Cirurgia da FAMED-UFU e Supervisor do Programa de Residência Médica em Cirurgia Geral do HC-UFU. ORCID. Última revisão: outubro/2026.
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