
Dr. Solon Gonçalves Souza Menezes
Professor de Cirurgia — FAMED UFU · Certificação em Cirurgia Robótica (Intuitive / Hospital Albert Einstein) · Atende nos Hospitais UMC e Mater Dei Santa Genoveva, Uberlândia-MG · (34) 99341-0915
A fissura anal é uma pequena ferida linear na pele do canal anal, quase sempre na linha média posterior. Causa dor aguda e em queimação durante a evacuação, que pode persistir por minutos ou horas, e um pouco de sangue vivo no papel. O mecanismo é um círculo vicioso: fezes endurecidas ou diarreia provocam o rasgo; a dor faz o esfíncter interno contrair em excesso; a contração reduz o fluxo de sangue na região e impede a cicatrização. Nas fissuras agudas (menos de 6 a 8 semanas), cerca de metade cicatriza apenas com medidas simples; nas crônicas, com bordas endurecidas, plicoma (“pele sobrando”) e papila hipertrofiada, a cicatrização espontânea é rara, e é aí que entram os medicamentos tópicos, a toxina botulínica e a cirurgia.
A diretriz da Sociedade Americana de Cirurgiões de Cólon e Reto (ASCRS 2023) é clara sobre os degraus. Primeiro, medidas conservadoras — fibras, água, banhos de assento — para toda fissura aguda. Depois, pomadas que relaxam o esfíncter: nitratos (eficazes, mas com dor de cabeça em pelo menos 30% dos usuários) ou bloqueadores do canal de cálcio (diltiazem, nifedipina), com eficácia semelhante e melhor perfil de efeitos colaterais, por isso preferidos como primeira linha. A toxina botulínica, injetada no esfíncter, tem resultados semelhantes aos das pomadas como primeira linha e ganho modesto como segunda linha, com 5% de incontinência transitória. Nenhum desses tratamentos cura todos os pacientes: a cicatrização com os tópicos fica em torno de 50%.

Para a fissura crônica que não cicatriza, a esfincterotomia lateral interna é o tratamento de escolha, com recomendação forte baseada em evidência de alta qualidade (grau 1A na ASCRS 2023) — e a diretriz admite oferecê-la como primeira linha em pacientes selecionados que preferem não passar pelas pomadas. A operação é simples: por uma incisão de poucos milímetros na lateral do ânus, divide-se a porção inferior do esfíncter interno, aliviando a pressão que impede a cicatrização. Nos ensaios comparativos citados pela diretriz, a cicatrização fica entre 88% e 100%; a metanálise de 8 ensaios randomizados (1.035 pacientes) encontrou cura em 90,2%, recidiva em 3,7% e algum grau de incontinência — em geral a gases, transitória — em 8,9%. A técnica “sob medida”, que limita a secção ao comprimento da fissura, mantém a cura com menos incontinência.
E o laser? Aqui a resposta precisa ser franca, porque o paciente chega perguntando. Diferentemente das hemorroidas e da fístula, não existe ensaio clínico, metanálise ou diretriz sobre laser para fissura anal: a literatura se resume a relatos de caso e pequenas séries sem grupo de comparação, e em várias delas o laser é apenas o instrumento de corte usado para fazer a própria esfincterotomia. O Dr. Solon Gonçalves trata a fissura seguindo os degraus da diretriz, nos Hospitais UMC e Mater Dei Santa Genoveva, em Uberlândia-MG, e usa a tecnologia de energia como ferramenta quando ela ajuda — sem apresentá-la como alternativa à esfincterotomia, porque a evidência ainda não permite.
Agendar uma avaliaçãoO que fazer em cada fase da fissura.
A sequência segue a diretriz ASCRS 2023. O exame proctológico, feito com delicadeza por causa da dor, confirma o diagnóstico e afasta outras causas de ferida anal — doença de Crohn, infecções e tumores — especialmente quando a fissura está fora da linha média.
Fissura aguda
Fibras, água, laxantes suaves e banhos de assento com água morna: cerca de metade cicatriza apenas com isso. Pomadas anestésicas aliviam a dor por tempo limitado.
Fissura crônica — 1ª linha
Pomada de bloqueador do canal de cálcio (diltiazem ou nifedipina), aplicada por 6 a 8 semanas; nitratos são alternativa com mais dor de cabeça. Cicatrização em torno de 50%.
Fissura crônica — 2ª linha
Toxina botulínica injetada no esfíncter interno, em consultório ou hospital-dia: ganho modesto após falha das pomadas; incontinência transitória em cerca de 5%; o efeito dura alguns meses, tempo em que a fissura pode cicatrizar.
Fissura crônica refratária — cirurgia
Esfincterotomia lateral interna: cura em 88% a 100%, com 8% a 30% de algum grau de incontinência nos estudos comparativos (8,9% na metanálise de ensaios randomizados). Em pacientes com risco de incontinência — lesão obstétrica, cirurgia anal prévia —, o retalho de avanço anocutâneo é a alternativa que poupa o esfíncter.
Pomada, toxina botulínica, esfincterotomia e laser, lado a lado.
A tabela resume o que a diretriz ASCRS 2023 e as metanálises publicaram para cada opção. A coluna do laser está vazia de números porque, até 2026, não há estudo comparativo que os forneça.
| Aspecto | Pomadas (nitrato / bloqueador de cálcio) | Toxina botulínica | Esfincterotomia lateral interna | Laser |
|---|---|---|---|---|
| Grau de recomendação (ASCRS 2023) | 1B | 1B | 1A — tratamento de escolha | Não consta da diretriz |
| Cicatrização | Cerca de 50% | Semelhante às pomadas; ganho modesto como 2ª linha | 88% a 100% (90,2% na metanálise de ensaios) | Sem ensaio comparativo; relatos de caso e séries sem controle |
| Recidiva | Frequente ao suspender | Comum após o fim do efeito | 3,7% na metanálise | Desconhecida |
| Incontinência | Nenhuma | Transitória em ~5% | 8,9% na metanálise (em geral a gases, transitória); menor com técnica sob medida | Desconhecida |
| Efeitos colaterais | Dor de cabeça (nitratos, ≥30%); irritação local | Dor na injeção; incontinência temporária | Dor leve, sangramento, infecção (raros) | Desconhecidos |
| Onde é feito | Em casa | Consultório / hospital-dia | Hospital-dia, anestesia local com sedação ou raquidiana | — |
No celular, arraste a tabela para o lado para ver todas as colunas.
O que esperar antes e depois da cirurgia.
Preparo pré-operatório
O exame proctológico é feito com cuidado, muitas vezes sem toque retal na primeira consulta por causa da dor. Para a esfincterotomia, pedem-se exames de sangue e avaliação anestésica; em mulheres com história de parto com lesão perineal e em pacientes com cirurgia anal prévia, a avaliação da função do esfíncter (às vezes com ultrassonografia endoanal ou manometria) é importante para decidir entre a esfincterotomia e o retalho. Orienta-se jejum e limpeza intestinal simples. A toxina botulínica e as pomadas não exigem preparo especial.
Recuperação e pós-operatório
A esfincterotomia é feita em regime de hospital-dia. A dor da fissura costuma melhorar já nos primeiros dias, porque a pressão do esfíncter cai; a pequena incisão cicatriza em uma a duas semanas. Banhos de assento, analgésicos simples e fezes macias (fibras, água, laxante suave) são a base da recuperação. Pode haver escape de gases ou pequena sujidade nas primeiras semanas, em geral transitórios. Trabalho sem esforço é retomado em poucos dias. Manter o intestino regulado por toda a vida é a melhor prevenção de recidiva.
Incontinência, recidiva e outros riscos, com os números.
O principal risco da cirurgia da fissura é a alteração da continência, por isso a indicação é criteriosa e a técnica, econômica. Os números vêm da diretriz ASCRS 2023 e da metanálise de ensaios randomizados.
- Incontinência após esfincterotomia — algum grau (quase sempre a gases, transitório) em 8,9% na metanálise de 8 ensaios; os estudos comparativos citados pela diretriz relatam de 8% a 30% conforme o tempo de seguimento. A técnica sob medida reduz esse risco (1,4% de incontinência a gases em uma série de 287 pacientes). A técnica fechada tende a menos incontinência que a aberta.
- Recidiva da fissura — 3,7% após esfincterotomia na metanálise; frequente após pomadas e toxina quando o hábito intestinal não é corrigido.
- Incontinência transitória após toxina botulínica — cerca de 5%, com recuperação em semanas.
- Dor de cabeça com nitratos — em pelo menos 30% dos usuários, levando à suspensão em até 20%.
- Sangramento, infecção, abscesso ou fístula — raros após a esfincterotomia.
- Laser — sem dados comparativos publicados; riscos não quantificados.
Dúvidas comuns sobre esse procedimento.
Fissura anal tem cura?+
Sim. As agudas cicatrizam, em cerca de metade dos casos, só com fibras, água e banhos de assento. As crônicas respondem às pomadas em torno de 50% das vezes e, quando não cicatrizam, a esfincterotomia lateral interna cura 88% a 100% dos pacientes nos estudos, com recidiva de cerca de 4%.
Qual a melhor pomada para fissura? Pomada resolve?+
As pomadas que relaxam o esfíncter — diltiazem ou nifedipina (bloqueadores do canal de cálcio) e, como alternativa, nitratos — cicatrizam cerca de metade das fissuras crônicas em 6 a 8 semanas. Pomadas anestésicas e com corticoide aliviam a dor, mas não tratam a causa. O uso deve ser orientado pelo médico, porque os nitratos causam dor de cabeça em pelo menos 30% dos usuários.
Fissura no ânus: o que fazer para aliviar a dor?+
Banhos de assento com água morna por 10 a 15 minutos, várias vezes ao dia; fezes macias com fibras, água e laxante suave; analgésicos simples; e a pomada relaxante do esfíncter prescrita. Evitar papel higiênico áspero e segurar a evacuação piora o ciclo de dor e contração.
Esfincterotomia ou toxina botulínica (botox)?+
A esfincterotomia cicatriza mais fissuras: uma metanálise de 18 ensaios randomizados (1.839 pacientes) mostrou cura significativamente maior com a cirurgia. A toxina tem a vantagem de não cortar o músculo e de ter efeito temporário, com cerca de 5% de incontinência transitória, e é uma boa opção para quem tem risco de incontinência ou prefere evitar a cirurgia — sabendo que a chance de cura é menor.
A cirurgia de fissura causa incontinência?+
É o principal risco e por isso a indicação é criteriosa. Na metanálise de ensaios randomizados, 8,9% tiveram algum grau de incontinência — quase sempre a gases e transitória; os estudos comparativos relatam de 8% a 30% conforme o seguimento. A técnica sob medida, limitada ao comprimento da fissura, reduz esse risco (1,4% em uma série), e pacientes com risco aumentado — lesão obstétrica, cirurgia anal prévia — são orientados ao retalho de avanço, que poupa o esfíncter.
Existe cirurgia de fissura a laser? É melhor?+
Não há evidência que sustente o laser como alternativa à esfincterotomia na fissura anal: até 2026 não existe nenhum ensaio clínico, metanálise ou diretriz sobre o tema — apenas relatos de caso e séries pequenas sem comparação, e em várias delas o laser é só o instrumento usado para fazer a própria esfincterotomia. Promessas de ‘fissura a laser sem cortar o músculo’ não têm base publicada.
A cirurgia de fissura dói? Como é a recuperação?+
A esfincterotomia é feita em hospital-dia, com anestesia local e sedação ou raquidiana. A dor da fissura costuma melhorar já nos primeiros dias, porque a pressão do esfíncter cai. A incisão é de poucos milímetros e cicatriza em uma a duas semanas; banhos de assento e fezes macias completam a recuperação. O retorno ao trabalho leva poucos dias.
Fissura anal coça? Por que sangra?+
A coceira vem da umidade e da irritação da pele ao redor da ferida, e o sangue vivo no papel vem da própria fissura, que se rompe a cada evacuação. Sangramento maior, com coágulos, ou ferida fora da linha média exigem avaliação, porque podem indicar outra doença.
Fissura crônica: quando operar?+
Quando a fissura persiste depois do tratamento com pomadas (e, se escolhida, da toxina botulínica), ou quando o paciente, bem informado, prefere a esfincterotomia como primeira linha — opção que a diretriz ASCRS 2023 admite em pacientes selecionados, sem risco prévio de incontinência.
Como evitar que a fissura volte?+
Mantendo as fezes macias e o hábito intestinal regular, para sempre: fibras (25 a 30 g por dia), água, atividade física e não adiar a evacuação. É a medida que mais pesa em todas as fases do tratamento.
Você opera pelo SUS?+
Faço cirurgias pelo SUS. Sou professor de Cirurgia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Uberlândia e opero pacientes no Hospital de Clínicas da UFU (HC-UFU). O caminho, porém, não passa pelo meu consultório: para ser operado pelo SUS é preciso procurar o posto de saúde ou a Unidade Básica de Saúde mais próxima da sua residência, ser avaliado por um médico e, havendo indicação cirúrgica, ser inserido na fila de regulação do seu município. O cirurgião não escolhe quem vai operar pelo SUS — a fila é seguida rigorosamente, conforme as regras do SUS.
Estrutura hospitalar em Uberlândia-MG.
Hospital Mater Dei Santa Genoveva
Av. Vasconcelos Costa, 967 — Bairro Martins, Uberlândia-MG
Abrir no Google Maps →Hospital UMC
Rua Rafael Marino Neto, 600 — Bairro Jardim Karaíba, Uberlândia-MG
Abrir no Google Maps →Conteúdo revisado por Dr. Solon Gonçalves Souza Menezes — CRM-MG 79366, RQE 60355 (Cirurgia do Aparelho Digestivo), RQE 44656 (Cirurgia Geral). Professor de Cirurgia da FAMED-UFU e Supervisor do Programa de Residência Médica em Cirurgia Geral do HC-UFU. ORCID. Última revisão: outubro/2026.
- Davids JS, Hawkins AT, Bhama AR, et al. The American Society of Colon and Rectal Surgeons Clinical Practice Guidelines for the Management of Anal Fissures. Dis Colon Rectum. 2023;66(2):190-199. doi:10.1097/DCR.0000000000002664
- Asefa Z, Awedew AF. Comparing closed versus open lateral internal sphincterotomy for management of chronic anal fissure: systematic review and meta-analysis of randomised control trials. Sci Rep. 2023;13(1):20957. doi:10.1038/s41598-023-48286-z
- Bonyad A, Zadeh RH, Asgari S, et al. Botulinum toxin injection versus lateral internal sphincterotomy for chronic anal fissure: a meta-analysis of randomized control trials. Langenbecks Arch Surg. 2024;409(1):355. doi:10.1007/s00423-024-03484-9
- Sahebally SM, Walsh SR, Mahmood W, et al. Anal advancement flap versus lateral internal sphincterotomy for chronic anal fissure — a systematic review and meta-analysis. Int J Surg. 2018;49:16-21. doi:10.1016/j.ijsu.2017.12.002
- Elfallal AH, Fathy M, Elbaz SA, et al. Comprehensive literature review of the applications of surgical laser in benign anal conditions. Lasers Med Sci. 2022;37(7):2775-2789. doi:10.1007/s10103-022-03577-1
