"O ator que pediu para morrer depois de uma cirurgia de hérnia."
Em setembro de 2026, a imprensa francesa noticiou a morte de Arnaud Denis, ator e diretor de teatro de 43 anos, que optou pela eutanásia na Bélgica depois de três anos de dor iniciada logo após uma cirurgia de hérnia inguinal. Ele operou em julho de 2023, com tela, em Paris. Dias depois começou a sentir dor intensa, perdeu 17 quilos em três meses, retirou a tela nos Estados Unidos em 2024 e não melhorou. O caso ganhou as páginas de grandes jornais internacionais e também do Brasil, como por exemplo Le Monde, da franceinfo e do Estado de Minas, e reacendeu uma discussão que os cirurgiões de parede abdominal conhecem bem.
Não examinei o Arnaud e também não tive acesso a seu prontuário médico, então não sei qual técnica foi usada na cirurgia dele. Por isso, ninguém pode afirmar que outra abordagem teria mudado a história daquele paciente. O que a história dele faz é colocar em evidência uma complicação que raramente entra na conversa antes de operar: a dor que não passa.
Este texto explica de onde vem essa dor, por que a técnica cirúrgica muda o risco, o que a cirurgia robótica acrescenta e o que fazer quando a dor já existe.
O que é a dor crônica depois da cirurgia de hérnia inguinal
A correção de hérnia inguinal é uma das cirurgias mais realizadas no mundo, com mais de 20 milhões de procedimentos por ano. A maioria das pessoas se recupera em poucas semanas e volta à rotina sem sequelas. Uma parcela, porém, continua sentindo dor na virilha meses depois da cirurgia.
A diretriz internacional de hérnia inguinal, elaborada pelo grupo HerniaSurge e endossada pelas sociedades de hérnia dos cinco continentes, define a dor inguinal crônica pós-operatória como uma dor incômoda, de intensidade moderada, que atrapalha as atividades do dia a dia e persiste por três meses ou mais depois da cirurgia. Segundo a mesma diretriz, ela acontece em 10 a 12% dos operados. Em 0,5 a 6%, a dor é incapacitante, a ponto de limitar o trabalho, a caminhada e a vida sexual.
Em outras palavras, uma em cada dez pessoas que operam hérnia inguinal fica com algum grau de dor persistente. É uma proporção maior do que a de recidiva da hérnia, e mesmo assim quase nunca aparece na conversa pré-operatória.
De onde vem essa dor
Pela região inguinal passam três nervos sensitivos: o ilioinguinal, o ílio-hipogástrico e o ramo genital do nervo genitofemoral. São estruturas com poucos milímetros de espessura, responsáveis pela sensibilidade da virilha, da raiz da coxa e da bolsa escrotal no homem ou dos grandes lábios na mulher.
Na cirurgia aberta convencional, chamada técnica de Lichtenstein, o cirurgião abre a região inguinal, trabalha exatamente na camada em que esses nervos passam e coloca a tela sobre eles. É uma cirurgia legítima, consagrada e que resolve a hérnia. O problema é que qualquer um desses nervos pode ficar preso na cicatriz ou fibrose da cirurgia, em um ponto de sutura ou em contato direto com a tela. Essa é a causa mais frequente de dor crônica: um nervo agredido, comprimido ou inflamado.
Existem outras causas, como a inflamação em torno da tela, a fixação com grampos e, em casos raros, reações ao material do implante. Mas quando um paciente chega ao consultório com dor na virilha meses depois de uma cirurgia de hérnia, a primeira suspeita é sempre neuropática, ou seja, um nervo sofrendo.
A tela é a vilã?
Depois do caso francês, muita gente passou a perguntar se a tela deveria ser evitada. A resposta, com base na diretriz internacional, é clara: a correção com tela continua sendo a primeira escolha para a maioria dos adultos, porque sem ela a hérnia volta muito mais. As técnicas sem tela, como a de Shouldice, têm indicação em casos selecionados e exigem cirurgiões treinados especificamente nelas.
Reações ao material existem, mas são raras. Na imensa maioria dos casos de dor crônica, o problema está na posição da tela em relação aos nervos, e não no material em si. É por isso que a via de acesso importa tanto.
Cirurgia aberta, videolaparoscópica e robótica: o que muda na dor
Nas técnicas minimamente invasivas, por vídeo ou por robô, a hérnia é corrigida por dentro, através de três ou quatro incisões de milímetros. A tela é posicionada atrás da parede abdominal, no espaço pré-peritoneal, sem abrir o canal inguinal e sem manipular a camada em que os nervos passam.
Essa diferença de camada tem impacto direto na dor. Uma revisão sistemática com metanálise publicada na revista Hernia em 2019, que reuniu 12 ensaios clínicos randomizados e 3.966 pacientes, comparou a cirurgia videolaparoscópica com a técnica de Lichtenstein e encontrou uma redução do risco de dor crônica para menos da metade, com a mesma taxa de recidiva e menos dor no pós-operatório imediato. A diretriz HerniaSurge recomenda as técnicas minimamente invasivas sempre que houver cirurgião treinado, e as prefere em mulheres, em hérnias bilaterais e em recidivas de cirurgias abertas.
A mesma tela, colocada em outra camada, reduz o risco de dor crônica a menos da metade. Esse é o ponto central deste texto.
O que a cirurgia robótica acrescenta
A cirurgia robótica realiza a mesma via posterior da videolaparoscopia, com uma diferença fundamental de precisão. O cirurgião opera sentado em um console, controlando instrumentos que reproduzem os movimentos das mãos dentro do abdome, e a plataforma acrescenta recursos que a videolaparoscopia convencional não oferece.
A visão é tridimensional, em alta definição, com ampliação de até dez vezes. Na prática, os nervos da virilha, que têm poucos milímetros, aparecem com nitidez antes de serem tocados, e podem ser identificados e preservados de forma sistemática.
As pinças têm sete graus de liberdade e giram como o punho humano, algo que os instrumentos retos da videolaparoscopia não fazem. Isso permite dissecar o espaço pré-peritoneal com delicadeza, posicionar a tela plana e ampla, cobrindo toda a região por onde as hérnias inguinais e femorais podem surgir, e fixá-la com pontos precisos, sem grampos perto de nervo. Permite também fechar o defeito das hérnias diretas com pontos, o que reduz o risco de recidiva, e suturar o peritônio ao final, sem clipes metálicos.
O tremor natural da mão é filtrado eletronicamente e os movimentos podem ser reduzidos em escala, o que dá ao cirurgião uma precisão que não existe na cirurgia aberta nem na videolaparoscópica.
Os estudos comparativos apontam na mesma direção. Uma metanálise publicada no Journal of Robotic Surgery, com mais de 64 mil pacientes, encontrou conversão para cirurgia aberta de 0% nos casos robóticos. Um estudo multicêntrico publicado na revista Surgery em 2025 mostrou que a curva de aprendizado da técnica robótica é mais curta que a da videolaparoscópica, com 29 casos contra 39, e que, vencida a curva, o tempo cirúrgico robótico foi menor, 59 minutos contra 65. Uma metanálise de 2026, com 5.520 pacientes, encontrou dor crônica 42% menor no grupo robótico em relação ao videolaparoscópico, uma tendência que os próximos ensaios clínicos ainda precisam confirmar, além de menor desgaste físico do cirurgião ao longo da operação.
É nos casos mais difíceis que essa precisão faz mais diferença: hérnias recidivadas, hérnias grandes ou inguinoescrotais, hérnias bilaterais e pacientes já operados da próstata, em que o espaço pré-peritoneal está cicatrizado e a dissecção exige o máximo de controle.
Quem opera importa mais do que a máquina
Nenhuma plataforma substitui a experiência de quem está no console. A diretriz HerniaSurge é direta nesse ponto: o volume de casos do cirurgião pesa mais do que o volume do hospital, e são necessárias cerca de 100 cirurgias minimamente invasivas supervisionadas para que um cirurgião alcance, na via posterior, os mesmos resultados da técnica aberta. O robô encurta essa curva, como mostram os estudos, mas ela existe.
Por isso, a pergunta mais útil que um paciente pode fazer na consulta é quantas hérnias inguinais aquele cirurgião opera por ano com a técnica proposta, qual é a taxa de dor crônica dele e como ele conduz o pós-operatório quando a dor não passa.
Já operei e ainda sinto dor. E agora?
Se você operou uma hérnia inguinal há mais de três meses e continua com dor na virilha, isso tem nome, tem tratamento e não deve ser aceito como normal. A dor inguinal crônica pós-operatória é uma condição reconhecida, com abordagem definida em diretriz.
O tratamento começa com a avaliação clínica detalhada, para diferenciar dor neuropática, dor por recidiva da hérnia e outras causas. A partir daí, a diretriz recomenda uma abordagem em etapas, com medicamentos específicos para dor neuropática, bloqueios anestésicos dos nervos inguinais, fisioterapia e, nos casos que não respondem, tratamento cirúrgico, que pode incluir a neurectomia dos três nervos e, em casos selecionados, a retirada da tela. Esses casos devem ser conduzidos por equipe com experiência em parede abdominal, de preferência em conjunto com especialistas em dor.
Como eu opero hérnia inguinal em Uberlândia
Na minha prática, a hérnia inguinal é operada por via posterior, com o robô da Vinci, com a tela posicionada atrás da parede abdominal e longe dos nervos. O risco de dor crônica entra na conversa de toda consulta pré-operatória, com os números na mesa, junto com a discussão sobre a técnica mais adequada para cada caso.
Atendo em Uberlândia, MG, e recebo pacientes de toda a região do Triângulo Mineiro. Se você tem hérnia inguinal e quer entender qual via faz sentido para o seu caso, ou se já operou e convive com dor, agende uma avaliação.
Perguntas frequentes
Dor na virilha meses depois da cirurgia de hérnia é normal?
Pode acontecer de o paciente sentir algum desconforto eventual por meses após a cirurgia, mas quando falamos de uma dor que persiste por mais de três meses e atrapalha o dia a dia é a dor inguinal crônica pós-operatória, uma complicação reconhecida que atinge 10 a 12% dos operados e tem tratamento.
A tela de hérnia causa dor crônica?
Na maioria dos casos, a dor vem de um nervo preso ou irritado na região da cirurgia, e não do material da tela. A posição da tela em relação aos nervos é o que mais pesa. Reações ao material existem, mas são raras.
Cirurgia de hérnia inguinal sem tela é melhor?
Para a maioria dos adultos, a diretriz internacional recomenda a correção com tela, porque sem ela a hérnia volta muito mais. Técnicas sem tela têm indicação em casos selecionados e exigem treinamento específico.
Qual é a diferença entre a cirurgia robótica e a videolaparoscópica de hérnia inguinal?
As duas usam a via posterior, com a tela atrás da parede. O robô acrescenta visão 3D ampliada, pinças articuladas que giram como o punho e filtro de tremor, o que permite identificar os nervos com mais clareza, fixar a tela com sutura, sem grampos, e fechar o defeito da hérnia. Nos estudos, a conversão para cirurgia aberta foi zero e a curva de aprendizado foi mais curta.
A cirurgia robótica de hérnia inguinal é coberta pelo convênio?
Não. A cirurgia robótica de parede abdominal ainda não consta no rol da ANS. O que podemos fazer é solicitar a cirurgia ao convênio por via videolaparoscópica, para cobertura de parte da internação hospitalar e dos materiais cirúrgicos, mas é necessário pagar a complementação robótica de maneira particular. A forma de utilização do convênio na internação e nos materiais, e os honorários da equipe cirúrgica, são esclarecidos na primeira consulta, caso a caso.
Quanto tempo leva a recuperação da cirurgia robótica de hérnia inguinal?
Na maioria dos casos a alta acontece no mesmo dia ou no dia seguinte, com retorno às atividades leves em 7 a 15 dias e liberação progressiva para esforço físico conforme a avaliação em consulta.
Referências
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- Estado de Minas. Eutanásia de ator expõe drama de vítimas de próteses de hérnia. 23 de setembro de 2026. em.com.br
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individualizada.
